Então ele sempre estaria dentro dela, num lugar fundo e escuro onde não pudesse ser encontrado com facilidade. Se por acaso perguntassem dele, ela diria que ele morreu. Morto e enterrado, por toda eternidade.
O amor sempre vem com esse peso da eternidade. Se amar uma pessoa significa tê-la pra sempre em sua vida, pense com cuidado quem vai amar. Porque isso de não escolher quem ama é uma mentira. Você escolhe no momento em que vê a pessoa, decide se vai ou não amá-la, se vai ou não levá-la consigo pra toda eternidade.
Ela havia decidido amá-lo, e essa decisão não tem volta. Então preferiu matá-lo dentro dela. Enterrá-lo no fundo da alma, onde ela não teria que conviver com as memórias que vinham com ele. Esquecer o seu nome, o seu cheiro, de como ele gosta do seu café, seu doce preferido, seu perfume, seu olhar, sua voz. Esquecer tudo o que amava nele.
Lembraria só das coisas ruins, de como ele a irritava ligando pra ela as seis da manhã de um sábado, de como ele falava mal das bandas preferidas dela, de que o toque dela no celular dele era "Se você pensa", e como ela sempre odiou isso, de como ele sempre discordou dela, de como ele era mais velho e menos responsável... Na verdade, ela sempre amou mais essa lista do que a outra, o amava até nas horas de raiva.
Eles iam ter filhos daqui a alguns anos, teriam uma casa, ele teria convencido ela a se casar, mesmo ela odiando casamentos.
E agora, o que ela ia fazer, com quem ia fazer planos, quem ia dizer pra ela não ter medo do escuro porque ela já está velha demais pra isso, quem cantaria no celular a música favorita dela quando ela começasse a chorar, quem ligaria as seis da manhã num sábado só pra ouvir a voz dela primeiro, com quem ela conversaria sobre música, quem a apresentaria novas bandas, quem discordaria dela, quem seria menos responsável só pra ela poder estar no controle da situação, quem faria tudo isso e ainda a chamaria de Vida?
O celular tocou de novo, e aquelas quatro letras a fizeram chorar. Ela resolveu atender.
- Oi.
- Oi vida, ainda chateada comigo?
- Talvez. — Ela ouviu a risada dele, e sorriu.
- Tá chovendo né?
- O que isso tem a ver?
- Bom, seria legal você me deixar entrar, com essa chuva as suas flores vão murchar.
Ela foi até a porta, lá estava ele, completamente molhando com girassóis nas mãos, ela sorriu e foi abrir o portão pra ele.
- Poderia ter vindo amanha.
- Sabe que com você, eu prefiro nunca arriscar, não quero perder você, nunca...Se isso acontecesse estaria perdendo o motivo da minha vida. Eu te amo muito pra te deixar pra depois.
Ela o beijou, agora os dois estavam molhados e abraçados na chuva. Mas, pra ela não importava, ela estava com os os braços em volta do motivo da sua vida, e o melhor, ela também era o motivo da vida dele.
"Um dia descobrimos que apaixonar-se é inevitável... Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples..."
— Mario Quintana

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