— Dói tudo, mãe. - Ela me olhava com a expressão mais serena que uma mãe pode ter enquanto sua filha chora descontroladamente. Me abraçou e perguntou calmamente: — Onde filha? Você se machucou?
Como explicar quando só o que eu sabia fazer era chorar.
— Dói aqui mãe. - Dobrava as pernas e me envolvia num laço feito pelos meus braços.
Ela entendeu que não adiantaria apenas perguntar, aliás, eu não iria responder mais do que fosse capaz de falar e eu não parecia capaz de falar muita coisa naquele momento.
Num instante de sanidade resolvi respirar fundo e tentar explicar; enquanto minha mãe me olhava, vezes com um olhar de preocupação e pena, vezes com um "eu te avisei" escondido nos cantos dos olhos, onde ela sempre esconde, eu me sentava e enxugava o rosto ainda vermelho e molhado pelas lágrimas.
— Ele morreu mãe. - Ela arregalou os olhos e perguntou ainda assustada: — Como ele morreu?
O "ele" era meu primeiro amor, que como todo "bom amor", terminou tão bem quanto uma chacina poderia terminar. O "ele" tinha acabado de morrer na minha vida, mas mesmo assim ainda residia em cada parte do meu ser.
— Ele desistiu de mim e foi embora. Foi como se ele estivesse morrendo na minha frente em uma tentativa estúpida de arrancar de mim tudo o que havia dele. Tentando levar junto todas as lembranças, risadas, sentimentos... Tudo que guardei comigo durante esse tempo. Foi horrível, mãe. Aí, depois de tudo, ele levantou e foi embora, sem nem se der o trabalho de olhar pra trás.
— Filha... Ele não morreu. - Ela passava a mão pelo meu cabelo, tentando de alguma forma me acalentar e sessar as lágrimas que já tinham voltado a cair.
— Morreu sim, mãe. Morreu pra mim. Porque meu corpo dói como se ele tivesse me espancado, arrancado meu coração e pulmões, estou sem ar, meu peito está dolorido. Minha cabeça não consegue fazer nada a não ser voltar àquele momento. Sinto o amor que havia em mim morrendo, virando raiva, ódio. A dor de odiá-lo é tão grande. Dói saber que vou sobreviver a isso. Dói porque sei que não vou esquecer. Dói porque toda vez que eu o vir, meu coração vai doer de novo.
— Filha, você não vai amá-lo pra sempre.
Eu olhei nos olhos dela e sorri doloridamente. E a dor consumiu a minha voz e as palavras que saiam da minha boca.
— Há pessoas que vamos amar pra sempre, não importa o que elas façam ou o que acontecer. E infelizmente mãe, ele é essa pessoa na minha vida.
— Como você sabe disso filha? Você ainda é tão nova. - Me deu um beijo na testa e saiu.
A verdade é que eu sabia. Até hoje quando o vejo meu corpo se contrai. Não sinto mais a intensa dor de antes, mas sinto o medo de voltar a sofrer assim. Sinto a curiosidade de saber como vai a vida dele sem mim. A saudade do tempo em que ele era causador do meu sorriso. E por fim, sinto a lembrança do amor que ainda está aqui, que ainda não foi esgotado. Que foi guardado e covardemente esquecido.
Por favor, não espere que eu seja sempre boa, agradável e amável. Haverá momentos nos quais eu serei fria, inconseqüente e difícil de entender.
Quem é você??
- Stephânia Batista
- Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, Brazil
- “Quem é você?” - perguntou a Lagarta “Eu… Eu não sei muito bem… A senhora me desculpe, mas no presente momento não tenho muita certeza. Pelo menos, eu sei quem eu era quando levantei esta manhã, mas acho que tenho mudado muitas vezes desde então…(…) (…)Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas mas não posso explicar a mim mesma…” (Alice no País das Maravilhas) Tumblr:http://house-of-fools.tumblr.com/
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